A escrita e seus caminhos

Jovens se aventuram no mercado editorial e apontam os passos para quem quer tirar seu livro da gaveta

Por Isabella Mariano e Lívia Corbellari

Conceber a ideia de uma estória, escrever, planejar gastos, calcular a tiragem, imprimir, publicar, distribuir e ainda conseguir chamar a atenção do público são alguns passos importan­tes para se lançar um livro. Ainda podemos incluir nessa lista encontrar uma editora interessada ou uma empresa disposta a ajudar financeiramente. Na verdade, esse é o caminho mais tradicional para publicação de uma obra literária. Com a ajuda de Internet, o processo simplificou-se. Se você opta por lançar um livro eletrônico, por exemplo, não irá precisar desembolsar muito dinheiro e pode, tam­bém, nem pensar na tiragem.

Aqui, no Espírito Santo, não é diferente. Quem esti­ver interessado em publicar um livro pode escolher um desses caminhos, mas terá que investir muito na divulgação, caso pense em uma distribuição ampla. Os editais de incentivo são, também, uma forma de apoio aos novos escritores. Em 2012, pelos editais da Secult (Secretaria de Cultura) foram contempla­das 10 obras literárias adultas, duas infanto-juvenis e duas de quadrinhos. Alguns dão apenas apoio fis­cal, outros bancam a publicação e garantem uma maior divulgação da obra.

Saulo Ribeiro, produtor editorial da Editora Cousa desde sua fundação em 2009, diz que ser escritor aqui no estado é como em qualquer lugar. Para ele, ser escritor não é mais sinônimo de prestígio, de forma que quem deseja fama procura outros cami­nhos. Sobre a influência dos avanços tecnológicos na publicação de livros, ele diz que os custos foram reduzidos e a tiragem não precisa ser grande. “É possível fazer 10 livros e lançar em casa com ami­gos. O mais difícil é chamar a atenção do público e ter retorno do que se escreve”, afirma. A Editora Cousa se dedica a lançar seis livros por ano, mas o número de pessoas que a procuram é bem maior. “Existe uma demanda que não conseguimos aten­der sem prejuízo da qualidade das publicações”, explica Saulo.

Uma dessas pessoas foi Leandro Reis, 22 anos, es­critor e estudante de Jornalismo, cujo livro “Cata­maran” foi lançado dia 28 de fevereiro deste ano. Leandro conheceu Saulo ao entrevistá-lo com o Cronópio, um grupo da Ufes de discussão e pro­dução literária do qual faz parte. Foi por participar deste grupo que Leandro começou a ler e a escrever mais. Ao perceber uma unidade no que escrevia, pensou que a história pudesse resultar em um livro. Quando ele estava quase terminando de escrevê­-lo, mandou para Saulo avaliar o conteúdo. “Por algum motivo, ele gostou e aí começamos a correr atrás da publicação”, afirmou o jovem escritor.

Leandro contou com a ajuda de um edital de in­centivo, que o levou a escrever quase todo o ma­terial em seis meses. Um prazo relativamente curto principalmente para quem escrevia seu primeiro li­vro. Apesar disso, ele afirma que se não houvesse um prazo, não terminaria o livro nunca. “Até hoje, evito reler, porque sempre vou querer mudar algu­ma coisa. Imagina se eu não tivesse publicado. O livro seria outro e, no mês que vem, seria outro”, acrescenta Leandro. “Catamaran” reúne contos que podem ser lidos seguindo a ordem do livro ou não, sem perder o sentido. O autor afirma, ainda, que “não houve – é bom dizer – muito exercício auto­biográfico, o livro é feito de representações. Mas aquilo tem que sair de algum lugar. A dor que está ali é real”.

Gabriel Ramos, 24 anos, é outro jovem que se aven­turou a escrever e a publicar um livro. O estudante de arquitetura resume sua publicação de uma for­ma poética: “Gosto de pensar que ‘longevo quan­do’ é uma aventura que nem sei bem aonde quer chegar, mas que bateu em algum lugar em mim e lá chegou”. Para nós, chegou mais precisamente em maio de 2012, graças a editora Quorum, em um lançamento aberto, quando os presentes puderam inclusive participar de uma espécie de banca de troca de poemas.

Gabriel teve ajuda de um edital de incentivo, e afir­ma que esse tipo de financiamento tem um lado bom e um lado ruim. Para ele, a notória vantagem é o prestígio, que facilita até mesmo na divulgação. Outro aspecto positivo do edital é que ele pôde utilizar os mecanismos de comunicação da própria prefeitura. “As pessoas olham seu projeto de outra forma, pois, sendo bom ou não, ele passou por um júri e mereceu ser bancado pelo estado”, diz. Em seu caso, o ponto negativo foi o próprio sistema do edital, que o sujeitou a correr atrás de uma empresa interessada e convencê-la a apoiar sua ideia. Para quem pretende participar de editais como esse, Ga­briel aconselha: “É importante respeitar as diretrizes que você traça ao montar seu projeto: custos, pra­zos, contrapartidas, distribuição e tudo mais”.

Diferente de Gabriel e de Leandro, há quem prefi­ra publicar seu livro de maneira eletrônica, fugindo de certas burocracias e gastos. É o caso de Tha­lita Covre, 27 anos, que lançou, no ano passado, o livro “Cacos de Verbos Inflamados”. Trata-se de uma seleção de poesias escritas entre os anos de 2006 a 2012, abordando temáticas como “silêncio” e “pele”. Ela optou pelo formato online para que seu público tivesse acesso ao conteúdo com mais facilidade. De fato, neste caso, a plataforma foi mais eficiente do que a impressa, uma vez que seu públi­co eram as pessoas que já a conheciam pelo blog.

Bastou ter o livro diagramado e revisado para, em seguida, armazená-lo em um site que transforma arquivos de textos em flash. Certos sites de armazenamento podem fazer isso de forma rápida e práti­ca, como o escolhido por Thalita, o Issuu. com – que permite acesso gratuito. Há, também, sites que oferecem serviço de autopublicação sem nenhum custo, como o edoAutor e o AGBook, mas nem sempre o acesso ao conteúdo é aberto. Sobre a popularização desse tipo de livro, Thali­ta afirma: “No Brasil, essa popularização está bem lenta. Mas não deixa de ser – e eu creio que cresça – um caminho viável àqueles que querem publicar seus livros e revistas sem muitos custos”.

São diversos os meios para se conseguir publicar um livro, alguns mais difíceis e demorados do que outros. Em todo o caso, a distribuição acaba sendo um fator preocupante. Se o autor publicou um livro eletrônico apenas pela satisfação pessoal, pode ser que não esteja muito interessado no retorno.

Mas, normalmente quem investe em uma publica­ção, busca, no mínimo, cobrir os gastos. E, para isso, é preciso que as pessoas conheçam o trabalho do autor, identifiquem-se com ele e, enfim, abracem a ideia, lendo o livro. Essa é uma boa forma de inves­tir na cultura do estado e de estimular a produção de livros por novos e antigos escritores.

Serviço
- Cacos de Verbos Inflamados, de Thalita Covre,
issuu.com/karinasc/docs/cacosdeverbosinflamados
- longevo quando, de Gabriel Ramos,
gabrieltramos.com/longevoquando/
- Catamaran, Leandro Reis,
www.cousa.com.br/site/

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