A música independente entre internet, espaço e selos

Entre críticas e elogios, músicos e produtores comentam o atual cenário de música do Espírito Santo

Financiamentos coletivos, pocket shows online, downloads de discos gratuitos, transmissão ao vivo, valorização do videoclipe e possibilidade de relação direta entre artista e fã. Se algo no mundo da música mudou neste início de século, muito se deve, provavelmente, à internet.

Desde 2003, o site “A Musicoteca” se dedica a ser um espaço de divulgação de novos talentos da cena musical independente. E o mais interessante é que todos os discos divulgados no site foram disponibilizados pelos próprios artistas para download gratuito. No Espírito Santo, diversos músicos e bandas independentes têm seguido para o mesmo destino: o dos discos online.

Recentemente, o quarteto de blues garage punk Colt Cobra lançou seu primeiro disco, o EPBlues Punk, na internet. Outros exemplos de artistas capixabas que seguiram o mesmo caminho são as bandas The Single Malt, Camarilo e o músico Rabujah. Ele lançou o disco Cozinha Americana, Quarto e Sala em formato online e, também, prensou poucas unidades do disco para o show de lançamento que aconteceu no ano passado, no Rio de Janeiro.

“Verdade é que não vejo outra forma de lançar um disco que não seja pela internet. Como não existem mais canais de distribuição de disco físico como antigamente, a internet se presta a esse papel de levar o trabalho para o mundo todo. O alcance sem dúvida é muito sedutor, no entanto a falta de informação, a pulverização e o descontrole são também pontos nevrálgicos”, comenta Rabujah.

Ainda que a internet possibilite ao artista criar seu próprio espaço de divulgação, os conteúdos publicados nem sempre chegam com facilidade ao público consumidor. Há quem dispense uma boa grana para impulsionar suas publicações e melhorar a divulgação do trabalho online. Mas há, também, quem tenha conseguido melhorar seu alcance com a ajuda da famosa ferramenta “compartilhar”.

Esse foi o caso da capixaba ANA que, após um compartilhamento providencial de uma de suas músicas pela página Brasileiríssimos no Facebook, experimentou um boom de acessos e curtidas. A Brasileiríssimos possui mais de 4 milhões de curtidas e, assim, acaba funcionando como um agente difusor de conteúdos na internet.

“Estamos no meio de um caminho de mudanças e desenhar qualquer perspectiva com certeza nesse momento seria imprudência minha. Sei que tenho músicas sendo tocadas na França, Inglaterra, EUA e China, e isso me faz feliz”, comenta Rabujah.

Por que não uma gravadora?
Recentemente, a banda Dead Fish bateu o recorde de maior financiamento coletivo na plataforma Catarse, arrecadando quase R$250 mil para a produção do disco Vitória – sétimo álbum do grupo. No texto do projeto, lia-se “Dead Fish de volta às suas raízes e totalmente independente”.

O cantor Leoni, cujo disco Outro Futuro, de 2006, havia sido distribuído pela gravadora Warner Music, também decidiu apostar no financiamento coletivo e irá lançar ainda neste ano o álbumNotícias de Mim. Ele criou, em 2002, o seu próprio selo musical e tem seguido firme o caminho da música independente. Mas a pergunta que fica é: por que não uma gravadora?

O capixaba André Prando se vê como um artista independente pelo fato de não contar com nenhum patrocínio ou um direcionamento para realizar seus trabalhos. Ele, que lançou seu mais recente disco – Estranho Sutil – com recursos de um edital da Secretaria de Cultura do Espírito Santo, explica que não tem nada contra gravadoras.

“Na real mesmo, eu ainda não tive contato com nenhuma gravadora. Ninguém me procurou e, por enquanto, como estou trabalhando meu disco mais recente, não tive tempo e nem pensei em procurar uma gravadora ainda. Mas, cá entre nós, não basta eu só querer. Mas enfim... Quando vier a rolar, o importante é não perder a essência da doideira do trampo”, explica o músico.

Seja para fugir da lógica de mercado das grandes gravadoras ou para encontrar um meio de viabilizar coletivamente seus trabalhos, muitos artistas, como Leoni, têm criado seus próprios selos independentes, através do qual, inclusive, dão espaço e apoio para outros músicos. Exemplo disso é a Laboratório Fantasma, criada pelo rapper Emicida que, desde 2008, dedica-se a lançar trabalhos independentes da cena de rap nacional.

No Espírito Santo, as bandas Blackslug, Adios, me Voy! e Broken & Burnt deciciram apostar nessa ideia e criaram o selo Voadora Records. “Uma gravadora tem vários funcionários, departamentos artísticos, de prensagem e distribuição, de produção, assessoria de imprensa nacional, ‘managers’ e ‘produtores parceiros’, estratégias locais, nacionais e internacionais, parcerias com várias mídias diferentes e aporte financeiro pra tudo isso (risos)”, explica Daniel Morelo, vocalista da banda Adiós, me Voy!.

Os selos independentes, geralmente, têm as mesmas vontades que uma grande gravadora: gravar, divulgar e tornar conhecidos os seus artistas. Porém, fazem isso quase sempre com menos recursos financeiros – ou contando com os seus próprios.

A música independente no Espírito Santo
“Espaço tem somente para quem vai tocar cover. Locais de oportunidade para bandas autorais é muito difícil, tão difícil que podemos dizer que só existem ‘bandas independentes’, já a tão sonhada ‘cena’ fica de escanteio. Acredito que a ‘cena’ é preenchida de movimento e constância. Não temos essa liga. Como promover esses shows?”, questiona Gabriel de Araújo, idealizador do projeto Rotativo Independente.

Por meio desse projeto, Gabriel – ao lado de outros artistas e produtores – realizam diversos eventos com o objetivo dar visibilidade a artistas independentes da Grande Vitória, além de contribuir para a união das bandas do cenário local. Recentemente, um dos eventos do projeto precisou ser adiado e a página do Rotativo Independente divulgou a seguinte pergunta: “Você apoia a cena ou se apoia na cena?”.

Segundo Gabriel, a ideia era realizar um questionamento e, ao mesmo tempo, um desabafo. “Vestir a camisa para uma total mudança do cenário é difícil. [...] Um projeto independente tem que ter voz para gritar quando está batendo no calo. Acho que essa é uma das grandes diferenças entre uma produtora grande e uma independente. Como dizia Dead Fish: ‘Eu grito pelo meu país que finge’. Não devemos fingir estar ajudando, não é para mim, é para todos nós. Devemos agir, mãos à obra”, explica.

Muitos outros grupos também têm investido na criação de espaços alternativos para a música autoral produzida no Espírito Santo, como o Assédio Coletivo – responsável pela produção do Festival Tarde no Bairro. O músico André Prando, inclusive, chegou a participar de uma das edições do evento, realizada em Santa Teresa, em 2012. Apesar de considerar viver um momento bom em sua carreira, pontua que é tudo muito limitado. E comenta, ainda, que a vida do artista, independente do lugar que ele esteja, não é fácil.

“Poucas casas podem investir em si mesmas. Tem prefeitura que te convida pra tocar, deixa tudo acordado e, na semana do show, dá pra trás e eu me ferro. O Estado agora passa por um momento lamentável de descaso com a cultura. Lembro de já ter lido várias matérias com artistas conhecidos nacionalmente e internacionalmente dando depoimento de que não é possível viver só da música, tem que ter outro corre e tal. Meu corre alternativo da música é a música mesmo”, diz André.
Rabujah, que trabalhou por alguns anos na capital carioca, ao fazer um comparativo entre Vitória e Rio, diz que observa uma distinção de pessoas, lugares e instituições que se envolvem no fomento, produção e distribuição musical. “O mercado fonográfico no Rio de Janeiro existe há pelo menos, arrisco dizer, cem anos. A cadeia produtiva e de distribuição é grande e muita gente vive dessa roda girando. E vive bem! Circula grana, interesses, iniciativas, parcerias, mas também rola a batalha de sempre do compositor e intérprete. [...] É uma construção desse caminho novo, onde existem milhões de artistas e milhares de consumidores, onde não existe gravadora nem venda de CD”, pontua o artista.

Entre críticas e elogios
Rabujah e André são músicos independentes. Gabriel e Morelo são, além de músicos, produtores independentes. Todos eles trabalham no atual cenário de música do Espírito Santo e, por isso, têm ainda muito a dizer:

“[É preciso] Melhorar o cenário através da quebra de ego tanto da parte dos veteranos, quanto dos calouros no quesito música e batalhar na construção de selos independentes. Vários selos! Chamar atenção de quem pode investir, consumidores do ideal. [...] Os elogios são isolados ao meu ver, relacionados a pessoas que são interventores culturais. Não consigo elogiar oportunidade em edital de cultura se temos problemas para tal divulgação dos benefícios. Elogio a força de vontade de pessoas que ocupam a Secult, que vão para cima como Assédio Coletivo. Elogio a força dos projetos, coletivos e núcleos independentes”.
Gabriel de Araújo – integrante da banda Reverso e idealizador do projeto Rotativo Independente

“Investimento na cultura, planejamento, verba. E investimento não significa que vai tudo estar resolvido no exato momento que tiver grana, não. Talvez o que possa ajudar em longo prazo a nossa cultura seja, além do investimento, uma educação gradativa na população, uma compreensão condicionada de que o Espírito Santo produz coisas maravilhosas, que existem artistas capixabas. [...] E quem tá de parabéns são alguns profissionais da cultura, o palhaço que ri na rua e chora em casa, o produtor musical foda que precisa cobrar muito, mas garante um trabalho lindo pro seu artista, o músico que se fode pra produzir seu disco de qualidade, mas dá tapa na cara com seu trabalho inacreditável, o público fiel que dá sangue e apoia aquele artista que ele deposita energia e fé”.
André Prando – músico independente

“Se olharmos só para as bandas estamos em um momento muito bacana, muita coisa boa e ruim aparecendo por aí. Agora, se fôssemos olhar para o Espírito Santo e suas políticas públicas e como funciona nosso ‘Potencial Turístico’ com leis de silêncio, toque de recolher, esvaziamento das ruas, sem mencionar a mídia de massa que pouco ou nada se interessa pelo assunto, ou as pouquíssimas e limitadíssimas casas que recebem bandas autorais.... daí estamos em crise. [...] O estado e os municípios deveriam sim, intencionalmente, defender e difundir indiscriminadamente os artistas locais, todas as casas noturnas e bares deveriam tocar ou realizar eventos com artistas locais. Em 10 anos, teríamos uma cena forte de invejar muito estado por aí. Acho que a resposta é: Vontade Política + Vontade Empresarial + Ampliação de espaços  + Difusão Midiática = Formação de público = Cena Independente Forte”.
Daniel Morelo – integrante da banda Adiós, me Voy!, do grupo Assédio coletivo e do selo independente Voadora Records 

“Viver no cenário independente em qualquer lugar demanda empenho. Aqui não é mais fácil ou difícil que ali. Tudo depende de onde você quer chegar com sua música. [...] Há quem se sinta pleno com uma carreira local, morando na cidade que gosta, mesmo que no interior. Também existem aqueles que pensam em atingir outros públicos, querem se comunicar com outras pessoas de outros lugares. Cada visão tem sua legitimidade, então me apego à minha: música como instrumento de posicionamento e interação com o mundo. Tenho pensado que é importante que a música possa respirar sem se pautar somente em mercado. Espero que o músico possa compor, tocar, fazer arranjo, ensaiar, sem se preocupar em ser essencialmente um empreendedor. A música, a arte, deve, ou deveria se bastar nela mesma”.
Rabujah – músico independente

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