Balançaê: intervenção espalha balanços de madeira em árvores

A ação é realizada pelo Laboratório de Imagens da Subjetividade (Lis), um grupo de pesquisa e ação formado por pesquisadores e alunos da Ufes    

O que você faria se visse um balanço pendurado em uma árvore no meio da cidade? Desses de madeira, feitos à mão, meio rústicos. Tem quem pararia e ficaria lá por horas. Tem, também, quem nem notaria o balanço, lá, tímido, à espera de qualquer companhia. Se você já viu algum balanço como esse pelas praias de Vitória ou pela região de Maruípe, provavelmente, se deparou com uma ação chamada Balançaê, do Laboratório de Imagens da Subjetividade (Lis).

Orientado pela professora Leila Domingues Machado, o projeto existe desde 2010 e foi criado no curso de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Trata-se de um grupo de pesquisa e de ações urbanas de arte política, que integra alunos de diversos cursos. A ideia é poder estudar os modos de vida contemporâneos a partir de ações na cidade, às quais Leila prefere chamar de “interferências urbanas”.

“A gente entende que nosso trabalho é um trabalho que visa a uma mudança, um produzir. É um disparador, um dispositivo de transformação das pessoas. Então, por isso que a gente chama de interferências, porque a ideia é criar. Elas acabam sendo estéticas também, mas elas precisam ser políticas e serem éticas no sentido de transformar as pessoas nesse processo”, explica a professora.

O Laboratório
O Lis nasceu de um incômodo da professora Leila com a formação dos alunos. Ela notava que muitos dos trabalhos eram apenas escritos, pouco ou nada havia de atividades práticas. “Aí eu comecei a dar uma disciplina que se chamava ‘Subjetividade, literatura e cinema’. E o trabalho final dessa disciplina era criar um vídeo para falar exatamente de um processo de pesquisa que cada grupo criou. A gente foi produzindo tanto vídeo que veio a história de criar um núcleo de pesquisa que estivesse voltado pra isso. E foi assim que o Lis foi criado”, conta a professora.

Atualmente, o grupo conta com cerca de 20 pesquisadores que são alunos não apenas da Psicologia, como também das Artes, da Arquitetura e da Comunicação Social. Além disso, doutorandos e pós-graduandos também integram o núcleo.

“Eu não trabalho pesquisa separada da extensão. Pra mim, pesquisar é uma ação. [...] A gente tem leituras em comum, mas também temos leituras que não vão ser em comum, porque aí já vai ter a ver com a pesquisa de cada um. Por mais que esteja todo mundo linkado numa pesquisa grande, que seria uma pesquisa eixo, também cada um tem seu próprio projeto e vai fazer a leitura daquilo a partir das suas ideias”, explica.

Essa pesquisa central à qual Leila se refere leva o nome de “Coisas que se passam sobre a pele da cidade”. E todas as ações e interferências elaboradas pelo Lis tentam sempre responder a uma questão chave, baseada em um autor chamado Michel Foucault, que coloca: “O que estamos fazendo de nós mesmos?”.

São a partir dessas indagações que nascem os projetos do Lis, como o Balançaê. Além dele, entre as ações já realizadas pelo Laboratório, estão: o Cart(ã)ografia, que consistia na distribuição de cartões com poesias e trechos de músicas por Jardim da Penha; e a Escutatória, em que o grupo se senta nas praças para ouvir histórias de vida. Há ainda intervenções mais efêmeras relacionadas ao projeto de cada pesquisador.

“A gente tenta exatamente pensar sobre a questão dos modos de vida contemporâneos, dos modos de vida urbanos, que são marcados pela pressa, pela vida acelerada, pelo consumo, pela solidão, pelo uso de muitos medicamentos, enfim. Esse é o nosso disparador de tudo e pra onde a gente volta pra abastecer exatamente essa questão”, diz.

Balança, balançaê
No início do ano passado, o Lis abriu uma seleção para novos pesquisadores. Os candidatos deveriam propor uma ação que dialogasse com a pesquisa desenvolvida pelo grupo. Um dos projetos enviados era justamente o Balançaê, proposto pelo estudante de Arquitetura e Urbanismo Thairo Pandolfi.

“Só que o Thairo foi fazer um intercâmbio em Salvador e aí a ação do Balançaê ficou meio parada. Quando foi no segundo semestre, eu falei assim: já que o Thairo não tá aqui com a gente, vamos nós executar essa ação. Aí, eu congreguei todo o grupo do Lis a trabalharmos juntos numa única ação e em todo processo dela”, conta Leila.

A ideia é espalhar balanços pela cidade de forma que todo o grupo passe por todas as etapas de execução, desde escolher as árvores e fazer os balanços até realizar sua manutenção e filmar os resultados.

“Nossa lista é maior do que a gente consegue instalar. E a ideia é que a gente também acompanhe o balanço, as pessoas que usam, como que é isso. A ideia é que ele seja um disparador pra que a gente possa captar a história de vida e o que aquilo tá significando para as pessoas”, afirma a professora.

Até agora o grupo instalou oito balanços, sempre observando alguns critérios. “O primeiro critério é que o balanço não fique num local perigoso, nem pra quem vai balançar, nem pra quem não está no balanço. Então a gente não coloca em calçadas, em nenhum lugar de muita circulação, enfim tem aquelas normas de mobiliário urbano e a gente cumpre essas normativas”, diz.

Além disso, a professora conta que é necessário observar se a árvore está saudável e se o galho é resistente. Outro critério é optar por locais públicos, onde um maior volume de pessoas se beneficiará do balanço. O grupo prioriza, ainda, a variação de lugares na cidade, para não privilegiar um local só.

“A gente instalou um balanço ali na região do hospital de Maruípe, porque era um lugar que a gente observava que tinha muita gente esperando pra ser atendida. Tanto pelo Hucam, quanto pelo Santa Rita e não tinham onde sentar, nem onde se divertir”, conta.

Ela explica que há mais um critério: a visão que a pessoa terá ao balançar. Seja para o mar ou para uma praça, o objetivo é criar uma conexão entre aquela pessoa e a cidade ao seu redor. A proposta do Balançaê é justamente proporcionar às pessoas um momento de pausa em meio ao caos da rotina urbana, sempre muito acelerada, possibilitando outras formas de experienciar a vida na cidade.

“O balanço, a primeira coisa que eu acho que ele traz é uma convocação do lúdico. As pessoas em geral falam muito como que o encontro com o balanço é um encontro onde elas lembram da infância. E, ao se permitir balançar, é como se elas se desnudassem um pouco de uma série de capas, de estereótipos, de coisas que se carregam para funcionar socialmente. [...] A gente observa como as pessoas mudam corporalmente falando. Elas gargalham, elas soltam o corpo, elas se jogam. E assim elas passam a olhar a cidade de outra forma, porque elas param pra olhar”, afirma Leila.

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