Intervenções urbanas mudam o dia a dia das cidades

Projetos se dedicam a espalhar frases engraçadas, divertidas ou reflexivas em muros e placas

Basta repousar o olhar em qualquer canto da cidade para poder observar uma paisagem, por vezes, recheada de concreto e de fachadas comerciais. Quem se sente entediado com sua própria rotina, pode acabar dando um tom acinzentado para o que vê. Mas, volta e meia, esse mesmo olhar encontra certas coisas capazes de chamar a atenção. Pode ser um pôr-do-Sol bonito, uma gargalhada sincera ou, então, alguma frase estampada em um poste.

Uma dessas frases pode ser esta: “Me liga, me manda um telegrama”. O trecho da música “Telegrama” do grupo Exaltasamba é um dos dizeres utilizados pelo Projeto Pagode. A ideia surgiu em 2012, quando Rayza Mucunã e Ádamo Moscon colaram o primeiro pôster, no viaduto de Vila Velha. A princípio, não havia a pretensão de dar continuidade àquela iniciativa. “Depois que eu vi que não era complicado e como o resultado final ficava interessante, veio a empolgação pra transformar em projeto mesmo e fazer mais frases”, conta Rayza.

Raça Negra, Revelação e Os Morenos foram alguns dos grupos escolhidos pelo Projeto Pagode para estampar postes e muros da cidade. Sem teorizar muito, a ideia é usar letras de pagode, que já fazem parte do imaginário popular, para gerar alguma reflexão ou lembrança positiva. “A minha intenção inicial era fazer uma intervenção que utilizasse a palavra, o elemento verbal, de uma forma diferente. Aqui em Vitória, a gente tá acostumado a ver intervenções de grafitti e pixações com frases. Queria fazer de outra forma, queria utilizar o elemento verbal de um jeito que fosse mais imagético também, mais estético”, explica Rayza.

Ela é quem produz os cartazes, mas o processo de criação e aplicação é colaborativo e conta com a participação dos integrantes do coletivo Foi à Feira e de outros amigos que quiserem ajudar.  “Fizemos também uma parceria com o Coletivix, que foi quando começamos a inserir o fundo de papel colorido (por ideia deles, inclusive). Essa parte de colar junto com outras pessoas acaba sendo a parte mais emocionante do processo”, conta. E se alguém se questionar sobre o motivo da escolha do gênero musical, Rayza já tem a resposta: “o pagode se mostrou uma fonte infinita de frases maravilhosas”.

Quem também intervém na paisagem urbana da Grande Vitória, mais especificamente nas placas de trânsito, são as amigas Luciene Alvarenga, Pollyana Martins e Eliete Coelho. Inspiradas pelo Projeto Pare, de Porto Alegre, elas decidiram trazer a iniciativa para Vila Velha. A ideia consiste, basicamente, na aplicação de adesivos nas placas de Pare, a fim de proporcionar momentos de reflexão mesmo em meio à correria diária. “O objetivo é que as pessoas façam uma pausa na rotina e reflitam. E percebam as coisas simples do dia a dia”, explica a pedagoga Luciene.

A constante movimentação do trânsito na cidade pode ser capaz de ofuscar a importância da gentileza nas relações pessoais cotidianas. Mas, para Luciene, com uma simples ação como a do Projeto Pare, é possível interferir positivamente nesse cenário. “Acredito que a partir de slogans bem humorados e de outros que toquem a sensibilidade dos motoristas e pedestres, podemos aos poucos ir transformando as atitudes das pessoas no trânsito, que muitas vezes são tão violentas”, diz.

As intervenções urbanas são, no mínimo, curiosas para o cidadão que consegue enxergá-las espalhadas pela metrópole. Tem quem coloque curativos nos buracos das calçadas ou espalhe corações de isopor em monumentos da cidade. Algumas provocam a reflexão, outras são capazes de nos levar a uma boa gargalhada. Independente do objetivo, elas conseguem nos tirar por alguns segundos do agitado ritmo que a cidade nos impõe.

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