Mulher e corpo são temas do projeto ‘Pistilos Libertos’

Criado pela fotógrafa Thaís Carletti, o trabalho é uma nova vertente do projeto “Use Flores” e retrata o nu feminino em contato com a natureza

Entre flores, sorrisos e fotografias, está a delicadeza do olhar fotográfico de Thaís Carletti. Há dois anos, Thaís se dedica a um projeto chamado “Use Flores”, que registra, de forma simples e descontraída, pessoas em contato com a natureza e, é claro, com as flores. “O conceito do projeto se desenvolve diariamente, em cada parceria e pesquisas que eu faço e também em cada pessoa que eu fotografo, cada pessoa traz sua própria essência para o projeto”, conta a fotógrafa.

Diversas pessoas já se deixaram fotografar pelas lentes certeiras de Thaís, com flores pequenas, coloridas, grandes, na barba ou no cabelo. “Eu fotografo um momento de intimidade entre a pessoa e a natureza, de descobertas e reconhecimentos. [...] Acredito que fotografar pro ‘Use Flores’ me traz muitos momentos de paz e de autoconhecimento, porque, durante as sessões de fotos, sempre acontecem conversas e divagações sobre a vida, a natureza”, conta a fotógrafa. Há, portanto, muita beleza em cada fotografia: a beleza das flores, a beleza natural da pele, a beleza do sorriso espontâneo e a beleza implícita, das ideias trocadas durante os ensaios.

Pistilos Libertos
Há quase dois meses, Thaís iniciou uma nova vertente de seu projeto, à qual nomeou de “Pistilos Libertos”. Nela, a fotógrafa mantém a mesma ideia do uso das flores, porém colocadas em outras partes do corpo feminino, especialmente, aquelas cuja exposição ainda é considerada tabu por muitos. Nesse sentido, o nome dessa nova vertente fala por si só, já que a palavra “Pistilos” é o termo usado para designar o conjunto de órgãos femininos das flores.

“A motivação dessa nova parte do trabalho eu posso dizer que vem toda do feminismo. Tenho frequentado grupos que conversam sobre esse tema, e principalmente sobre violência contra a mulher e padrões de beleza, e esse assunto rende a mim a vontade de ajudar a desconstruir o machismo, e acredito que cada um tem o dever de fazer isso da forma que pode, e a minha forma é a fotografia”, conta Thaís.

Para a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, feminista é “a pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”. Para muitas feministas, para chegar a essa igualdade é preciso passar pelo direito que a mulher tem sobre seu próprio corpo. E é essa uma das reflexões que Thaís pretende trazer por meio do seu trabalho.

“O Pistilos Libertos tem uma função social além da função artística, que é mostrar que o corpo da mulher é somente dela e que a nossa sexualidade é livre. Através desses ensaios, rolam conversas sobre o corpo da mulher, sobre se aceitar como a mulher maravilhosa que cada uma é”, afirma.

Mulher e corpo
Como ela mesma diz, a Pistilos Libertos é ainda uma vertente “recém-nascida”, com poucas fotos, mas uma coisa Thaís já pode afirmar: esse é um projeto exclusivamente feminino. “É apenas sobre mulheres e nosso direito sobre nós mesmas”, conta.

Em 2001, a Onodera, maior rede de franquias de clínicas de estética facial e corporal do país, lançou o resultado de uma pesquisa intitulada “A Beleza da Mulher Brasileira”, realizada com cerca de 3500 mulheres, de 18 a 60 anos. De acordo com o estudo, apenas 8% das mulheres entrevistadas estão totalmente satisfeitas com seu corpo. A exploração de um corpo cada vez mais inalcançável, por meio da mídia, pode ser um dos fatores que contribui com essa insatisfação.

Para Thaís, é extremamente importante que existam projetos fotográficos que questionem essa prática. “Quanto mais trabalhos abordarem esse tema, mais conseguimos lutar contra essa forma de opressão da mídia. É mais uma forma de desconstrução do machismo e de trazer mais mulheres e homens para o lado bom da força (risos)”. E esses projetos existem não apenas aqui, mas também em diversos outros cantos do mundo. Confira alguns deles:

Jessica Ledwich
Jessica estudou inicialmente Artes Cênicas, na Austrália, mas logo descobriu sua vocação na fotografia. Ela criou um projeto fotográfico chamado “The Fanciful, Monstrous Feminine” (O Fantástico Monstruoso Feminino). As fotos passaram por um tratamento estético para criar situações ficcionais que visam a questionar a busca incessante pelo padrão ideal de beleza.

Laura Dodsworth
Laura é responsável pelo projeto chamado “Bare Reality: 100 women, their breasts, their stories” (em tradução livre: “Realidade nua: 100 mulheres, seus seios, suas histórias”), que resultou na publicação de um livro. Ela decidiu iniciar esse trabalho por se sentir fascinada pela dicotomia entre a vida pessoal das mulheres e como elas são retratadas na mídia. Em seu site, ela diz: “’Realidade Nua’ é, para mim, o resultado inevitável de ser uma mulher, uma feminista e uma fotógrafa”.

Rhiannon Schneiderman
Rhiannon é uma jovem de 25 anos que mora na Flórida e que decidiu fazer uma série de autorretratos para questionar o ideal de beleza do corpo feminino. Assim, ela criou o projeto chamado “Lady Manes”, no qual ela registra com humor o uso de diferentes perucas em sua vulva.

Thaís Carletti
A Thaís disponibilizou algumas fotos do projeto “Pistilos Libertos” para você poder conhecer melhor o trabalho e também poder refletir sobre o assunto.

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