O zine como mídia alternativa para propagação da arte

Os coletivos Foi à Feira e Literatura Marginales apostam no formato zine para divulgar suas próprias produções artísticas. Saiba mais!

Em 2011, a editora independente Ugra Press, de São Paulo, organizou a primeira edição do evento Ugra Zine Fest, com o objetivo inicial de lançar o 1º Anuário de Zines. Para aproximar ainda mais o público, o festival resolveu abrir espaço para exposição de trabalhos de outros grupos em uma feira de fanzines, zines e publicações alternativas. O resultado surpreendeu: o evento se transformou em um grande encontro de fanzineiros, vindos de diversos lugares, no agitado bairro paulista Vila Madalena.

Em sua terceira edição, em 2013, o Ugra Zine Fest reuniu cerca de 30 expositores e, no ano passado, esse número subiu para 86. Um deles foi o Foi à Feira, um coletivo de criação autoral e artística e que, atualmente, possui um selo de publicação de impressos experimentais.

“Foi sensacional fazer parte dessa rede de fanzineiros que tem se tornado cada vez mais intensa e extensa no Brasil. Aqui em Vitória a gente às vezes se sente um pouco à parte, já que a cena ainda tá meio que começando por aqui, então é sempre muito especial poder compartilhar experiências e zines com uma galera que já tá nesse rolê há muito mais tempo que a gente”, conta Rayza Mucunã, integrante do coletivo Foi à Feira.

O grupo já lançou duas edições do zine que leva o mesmo nome do coletivo, Foi à Feira. A publicação é inspirada em tudo o que o universo das feiras remete, onde “cada um vende seu peixe”. Assim, o zine reúne trabalhos de diversos artistas em torno de um único tema. Vale foto, poesia, arte, ilustração, literatura e outros.

O que é um zine?
Mas, afinal, o que é um zine? O termo é uma abreviação da palavra inglesa “magazine”, que significa “revista”. Os zines – também chamados de fanzines – são, hoje, normalmente conhecidos como publicações independentes de pequena circulação, cuja produção se relaciona muito intimamente com o “faça você mesmo”.

“Hoje em dia, a gente dá de cara com zines que realmente questionam formatos, discursos, formas de disseminação da mensagem, noção de editoria e curadoria, etc. Então, eu acho que no final das contas o que define se determinado impresso é um zine não é físico, nem palpável, mas sim a alma, a essência do impresso, como exatamente algo alternativo, independente, que responde à sua própria ideologia existencial e que existe a partir da vontade de trocar, disseminar, espalhar, gritar ou sussurrar alguma coisa”, afirma Rayza.

A publicação em formato de zine é feita, muito comumente, contando com um baixo orçamento e com foco na divulgação e disseminação do conteúdo ali reunido. Esse é, por exemplo, o objetivo do Foi à Feira com seus zines, cuja ideia surgiu a partir de algumas reuniões informais de produção artística livre – apelidadas de Tábuas de Carne.

“Depois de algumas reuniões ficamos com a pulga atrás da orelha: o quê que a gente vai fazer com tudo isso que foi produzido? Guardar na gaveta? Colocar na internet? Ah, bora fazer um zine! E assim nasceu o zine Foi à Feira e o coletivo, nessa ânsia de produzir e fazer circular essa produção maluca, sem eira nem beira”, explica Rayza.

Poesia em zine
Esse mesmo ideal, de fazer circular a produção, foi o que motivou o Coletivo Literatura Marginales a apostar na mesma iniciativa. Formado por jovens escritores da Grande Vitória, o grupo criou, em 2013, o zine (Des)Construção, com poemas de Janio Silva, Joel Nobre Jr e Juplin Jones, e arte visual produzida por Juliana Castilho.

“Nós divulgávamos os textos escritos apenas na internet, mas sentíamos a necessidade de expandir essa divulgação e fazê-la chegar às ruas. Um contato mais direito. De toque mesmo. Acreditamos que dessa forma, ao comercializar ou distribuir os zine, poderíamos trocar uma ideia com o leitor”, explica Juplin Jones, um dos integrantes do grupo.

Fundado em 2012, o coletivo é formado por escritores que produzem, discutem e propagam a literatura marginal, com a proposta de valorizar a cultura periférica e, também, fomentar a leitura e a produção literária. Para Juplin, a cultura dos zines e a própria literatura marginal tem uma relação bem próxima, por ambas serem frutos das ruas.

“Os zines foram o principal meio para a divulgação da literatura marginal da geração mimeógrafo. A ‘nova geração’ da LM se apropriou de outros meios de divulgação, até por ter mais contato com as tecnologias, mas os zines continuam sendo uma grande arma”, afirma o escritor.

Talvez, daí tenha nascido o chamado fanzine eletrônico ou “E-zine”. Trata-se de uma publicação periódica, semelhante ao zine impresso, porém distribuída por e-mail ou publicada em um site. Um exemplo desse tipo de publicação é a The Void, feita por e para fãs do jogo League of Legends. http://thevoid.com.br/

Selo Foi à Feira
No ano passado, o coletivo Foi à Feira criou um Selo de Impressos Experimentais para atuar na área de editoração e produção de zines. “Queríamos diversificar. A ideia de transformar o coletivo num selo veio naturalmente como um meio de dar forma a todas essas produções, abranger tudo dentro de uma coisa maior, o que também facilita a nossa divulgação”, afirma Rayza. Desde a sua criação, o selo já lançou seis publicações: Kikanoperu, Demozine, Concha, Zine XXT, B*E*C*K e o zine fotográfico trilíngue Vaibe.

Os formatos e conteúdos são diversos. No caso do Selo Foi à Feira, há zines feitos apenas com papel sulfite e outros feitos dentro de um álbum para fotos. Alguns são grandes, outros são pequenos. E é justamente por existir essa variedade de formatos que o tempo de produção de um zine vai depender do projeto e, é claro, do envolvimento dos próprios participantes.

“Como todo o processo de produção está nas nossas mãos, podemos acelerar ou desacelerar esse processo a nosso bel prazer. O Foi à Feira #2 levou mais de um ano pra sair (quase dois, na verdade). Já o B*E*C*K foi todo produzido em uma semana. O XXT também foi produzido em menos de uma semana, acho que em uns quatro dias. Depende muito de como vai ser esse zine, do acabamento, do tempo de criação das artes (ou o tempo de receber as colaborações) e do nosso tesão mesmo pra lançar a coisa”, explica Rayza.

Mídia alternativa
O zine é, então, uma mídia alternativa que reúne tanto informações sobre assuntos específicos – como games ou política – e/ou também trabalhos artísticos relacionados à fotografia, ilustração, literatura e outras linguagens. Para Juplin, a principal importância de que artistas produzam mídias alternativas, como o zine, para divulgar seus trabalhos está na criação de um circuito não oficial.

“Coloca em debate os valores e conceitos vigentes relacionados às artes, aos conhecimentos e ao próprio mercado. É uma forma de superar e mostrar outras possibilidades de produção e circulação”, diz. E Rayza complementa: “Acho que a verdadeira importância tá no caráter questionador que essas mídias podem ter em relação ao senso comum, ao sistema de mídia globalizado que é manipulador, exclusivo e maniqueísta. A importância tá no fazer, no desafiar, na contra cultura que existe e que engloba tudo isso”, pontua.

Acompanhe os trabalhos do Coletivo Literatura Marginales acessando aqui sua página no Facebook e do Foi à Feira pelo site www.foiafeira.com.br.

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