Um passeio pela história da arte com Alexandre Mury

O artista volta à Vitória com a exposição “Fricções Históricas”, que entra em cartaz nesta quarta-feira (29), em Vitória, com autorretratos que fazem releituras de obras-primas

É uma fotografia, ou melhor, um autorretrato. Mas os elementos, a composição, o enquadramento, tudo faz lembrar uma importante obra da história da arte. Talvez, seja essa a sensação de quem vê, pela primeira vez, as releituras produzidas pelo artista Alexandre Mury. Algumas delas estarão em exposição na mostra Fricções Históricas, que entra em cartaz nesta quarta-feira (29), no Centro Cultural Sesc Glória, em Vitória.

“Não é simplesmente uma transposição de ordem técnica, da pintura transformar-se em fotografia , mas tem um envolvimento também com um processo de pesquisa, de estudo, de investigação da história da arte e um processo performático”, resume Alexandre. E tudo começou como uma brincadeira na Internet, no início dos anos 1990, quando o artista produzia fotos criativas, elaborando cenários e maquiagens, para o seu fotolog.

Foi assim que o marchand Afonso Costa – que hoje é o coordenador da exposição – encontrou os autorretratos de Alexandre e o convidou para ir ao Rio de Janeiro. Em 2008, após realizar uma seleção de fotos, Afonso decidiu mostrá-las a Joaquim Paiva, o maior colecionador privado de fotografia do país, que adquiriu uma série de 16 trabalhos. O comprador seguinte foi Gilberto Chateaubriand. Dois meses depois, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro incluiu trabalhos de Mury na mostra Novas Aquisições 2007/2010.

Fricções Históricas esteve em cartaz na Caixa Cultural no Rio de Janeiro em 2013 e, agora, chega à Vitória com trabalhos inéditos, como El Comedor de Sandías, inspirado na obra do mexicano Rufino Tamayo. Na capital capixaba, a mostra conta com 42 autorretratos, com curadoria de Vanda Klabin.

“A ideia que fez com que esses trabalhos fossem escolhidos e estivessem reunidos seria esse passeio pela história da arte que eu faço. Por isso, o título da exposição, Fricções Históricas. É a história indo e voltando, com vários ícones e artistas que são importantes para o desenvolvimento da arte. [...] Eu estou sempre investigando esses processos e produzindo uma coisa nova, uma coisa contemporânea. É como se fosse uma revisão de tudo aquilo que a gente já viu de arte”, afirma Mury.

Entre as obras reinterpretadas pelo artista, estão Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci; Abaporu, de Tarsila do Amaral; A Duquesa Feia, de Quentin Massys; Adão de Michelangelo; Lúcifer, de Franz Von Stuck; e muitas outras. Segundo Alexandre, todo esse processo de escolha dos trabalhos, que pressupõe uma pesquisa e uma relação com o próprio artista, também faz parte da proposta.

“Às vezes, o trabalho me escolhe. Às vezes, eu escolho o trabalho. Às vezes, o tema vem primeiro na minha cabeça e eu consigo fazer uma conexão. Mas cada trabalho tem uma relação especial. Não é como se fosse um projeto, eleger uma lista e sair produzindo um monte de releituras. Não é assim. Tem que ter certo envolvimento que faz parte do projeto do trabalho. O trabalho é isso também”, explica o artista.

Na hora de realizar as fotografias, é Alexandre quem pensa toda a produção, do cenário aos objetos necessários. Ele assume, ainda, um papel completamente performático na hora de ser o protagonista das suas próprias lentes.

“Apesar de o meu trabalho ter bastante humor e ironia, também tem trabalhos melancólicos. Até mesmo os trabalhos melancólicos, eles guardam um pouco de humor. Há sempre uma ambiguidade, um complexo de emoções de sentimentos, de expressões. E eu acho que eu tento ver isso em mim mesmo, vivenciar isso tudo, mas também compartilhar isso com as pessoas que veem o meu trabalho, gostam e percebem coisas”, conta.
 
A produção da releitura de Monalisa foi a que mais exigiu transformações físicas. Pela primeira vez, o artista mexeu no próprio corpo: tirou a barba, o cabelo e até as sobrancelhas. Tudo documentado em vídeo, que também faz parte da mostra. Alexandre conta que, depois de tirar as sobrancelhas, ficou cerca de dois meses em casa, esperando que elas crescessem.

“É um desafio que eu me proponho. Quis fazer isso como um gesto poético, uma ação artística, um ato que um artista tem para poder produzir um trabalho que tenha um resultado forte, expressivo e significativo”, diz. Ele conta, também, que evita o uso de ferramentas de edição, como o Photoshop, como forma de evidenciar que o trabalho é feito à mão, com todas as suas imperfeições.

“Aparecem todas as gambiarras do meu trabalho. Aparecem o os arames pendurando as coisas, os barbantes, a cola, a fita adesiva. [...] Aparecem vários ruídos e todas essas coisas não estão ali por acaso. Não é um mero desleixo. Faz parte de uma proposta, além de uma proposta estética. Cada detalhe é meticulosamente processado, pensado com algum propósito, mas nem todos os propósitos alcançam os objetivos”, explica.

Para receber a exposição, o Centro Cultural Sesc Glória realizou diversas palestras formativas para que os monitores que vão acompanhar a mostra estejam aptos para informar sobre o trabalho de Mury e, também, sobre as obras representadas. “Vai ter visita guiada, com arte-educadores. Provavelmente, as escolas irão levar as crianças. E acho que é um estímulo muito grande pra conhecer outras obras de artes”, afirma o artista.

Depois de uma temporada no Rio de Janeiro, Fricções Históricas chega à Vitória e fica em cartaz até o dia 12 de julho. A relação do artista com a capital capixaba não é nova. Alexandre estudou e trabalhou durante cinco anos em Vitória e, em 2010, decidiu abrir mão do seu emprego para poder se dedicar totalmente à arte.

“Voltar pra Vitória, a cidade onde eu larguei o emprego para me dedicar à arte, é muito importante. Uma cidade onde eu gostei de morar, vivi cinco anos. Foi um momento que eu comecei a produzir mais intensamente. Essa cidade é inspiradora. Voltar significa, para mim, não só uma legitimação como artista, mas também um reconhecimento. Fico muito feliz em voltar à cidade, muito feliz em estar sendo bem acolhido”, conta Mury.

Exposição
Fricções Históricas fica em cartaz de 29 de abril a 12 de julho, no Centro Cultural Sesc Glória, podendo ser visitada de terça à sexta-feira, das 9 às 20 horas; e aos sábados e domingos das 10 às 19 horas. Os ingressos custam R$2 a meia-entrada e R$5 a inteira.

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